Dicotomias

Memórias, contos & Poesia

domingo, 6 de abril de 2014

Na Frente do Touro - Por Hélder Gonçalves



Memórias

    Atravessando o deserto:
     as três fases de uma luta 
                                

Na eminencia do perigo real, quando a morte nos espreita,em plena consciencia,resta-nos                  
             a dignidade da calma dos valentes


                                                       A DÚVIDA


Nas minhas mãos estava um envelope fechado. Dentro, um simples papel que, no entanto, iria determinar a minha vida, a partir do preciso momento em que o retirasse
. Foi o que fiz, com um filme a passar rápido na minha cabeça – a vida pregara-me uma tremenda partida, na altura em que, no goso da minha reforma, como empregado bancário, poderia usufruir de um merecido descanso, após anos de trabalho e, tudo a partir deste momento, estava posto em causa!  Com adrenalina a secar a minha boca, li o veredicto que já esperava – “Foram analisados todos os tecidos enviados  e, um deles demonstrava estarmos na presença de um carcinoma, com o grau gleasen 8” ( característica considerada altamente agressiva”


Uma calma, de súbito, tomou conta de mim. Terminara alí todo um purgatório corrosivo de dúvidas, fundamentadas em sintomas perturbadores, um calvário de exames médicos, pareceres clínicos, marcações de consultas e  penosas incertezas. A meu lado, minha mulher e meu filho, partilhavam  a minha terrivel angústia. Agora teria de coexistir com a certeza! Iria atravessar o deserto tremendamente só, numa luta pessoal comigo próprio e a doença. O cronómetro começara a contar a partir daquele momento!



                                                    A  CERTEZA

Voltei-me para eles e, nos seus rostos, vi consternação. Envolvi-os no mesmo abraço, dizendo-lhes  - estou “ferrado” mas não quero entregar os pontos de qualquer maneira! Estava, agora, a reunir todas as minhas forças para o combate.

O professor, homem de 70 e tais anos, olhava para mim estudando as minhas reações.por detrás de uma enorme mesa onde assentavam vários adornos e uma estatueta de loiça, descritiva das diversas partes do corpo humano em secções descartáveis. Para ele era mais um caso, na sua  já longa vida profissional, para mim era a minha vida que estava em jogo! Depois de uma expectativa e de um silencio perturbante, o professor fixa-me intensamente e pergunta-me – está com medo? Achei a pergunta um pouco insólita, pouco adequada aquele momento dramático, em que não deveriam ter lugar abordagens exploratorias de carácter psicológico mas, sim, um imediato apoio e ajuda a digerir tão brutal notícia. Poucos médicos, infelizmente, estão preparados para lidar convenientemente com estas situações, endurecidos que estão, pela constante presença destes casos, nas suas vidas profissionais.
 Respondi-lhe: sim, claro que estou com medo, que estava à espera? mas, agora, só penso numa coisa – lutar com todas as minhas forças. Aprendi, nesse momento, a não ter medo das palavras que estavam inerentes à doença – iria  tratar o boi pelo nome Diga-me, portanto, quais as hipóteses que tenho? Afirmou-me que havia uma percentagem razoável de cura, considerando que o processo fora detectado, ainda, no principio, numa zona limitada em área circunscrita, tudo, depois, era uma questão de tempo e acompanhamento.
 Entretanto, dáva-me, nota, quais os tratamentos mais adequados ao   tipo de tumor e zona do corpo em que se encontrava: sendo no meu caso,  o da próstata.  Foi-me elucidando com bastantes detalhes todo o percurso do combate que iria ser iniciado.
Depois de algumas hipóteses apresentadas para o tratamento em questão, a que se lhe afigurava mais conveniente, seria a hormonoterapia de imediato, a fim de bloquear a actividade da produção de testosterona, paralelamente  acompanhado de um programa de sessões de radioterapia intensivo durante 40 dias
Era uma fase em que me agradaria estar, desejando, agora, a sua rápida aplicação, por entender que começava ali, a luta contra as malditas células que me queriam minar, multiplicando-se desordenadamente, acabando por tomar conta de todo o meu corpo! Era a sensação de começar, a partir daquele momento, a estar mais prevenido para o combate, com as armas mais poderosas e eficazes, conhecidas até ao momento.
E, foi assim, após mais alguns exames complementares, que dei entrada no hospital da CUF – Descobertas, para dar inicio a uma prescrição de 40 sessões  diárias de radioterapia.
Entrei pois, com uma postura de confiança e, já sem medo, porque, entretanto, tinha-me organizado interiormente, dando lugar ao renascimento de um outro “eu” sublimado pela a adversidade e infortúnio, agora preparado, para a travessia do deserto. Foi um pacto comigo mesmo, porque o touro estava ali, na minha frente, à minha espera!





                                                         O  TRATAMENTO
                       
                                                   Sala de espera de radioterapia


                                      Apontamentos do quotidiano



O Hospital  tinha umas instalações consideradas das melhores no sector. excepto as que foram, no tempo, destinadas à radioterapia, sobretudo na sala de espera  para os pacientes. Talvez por uma questão de segurança e das características do material utilizado no tratamento, com aparelhos sofisticados na emissão de raios X, os serviços teriam de funcionar no segundo piso,abaixo do nível do chão, sem janelas, consequentemente, com iluminação artificial.
O mobiliário era o mais simples possível, sem qualquer intenção decorativa, limitando-se a umas cadeiras corridas, terrivelmente desconfortáveis e  design duvidoso. Um televisor, um armário com serviço automático de cafés, um dispositivo para água potável, eram os apoios existentes ao serviço dos doentes e um WC ao fundo da sala.
Era, portanto, neste ambiente que, os doentes,  iríam viver alguns breves momentos, durante dias a fio,  num período altamente dramático das suas vidas. De certa forma havia um ciclo que permitia, nos mesmos horários, encontramos as mesmas pessoas, daí alguns contactos foram possíveis estabelecer, contribuindo para amenizar algumas tensões que todos, de alguma forma, transportavam .
                           
O meu nome soou, quando uma porta se abriu.  Uma jovem, depois de me cumprimentar atenciosamente, conduziu-me para uma antecâmara com diversos compartimentos, onde teria de trocar a minha roupa, substituindo-a por uma bata de cor azul. Pouco depois e já devidamente preparado, fui encaminhado para uma sala de contolo com algumas secretárias e monitores, assistidos por técnicos bastante novos que monotorizavam todo o funcionamento da grande máquina de feixes de raios X  Havia uma divisão altamente blindada, tipo casa-forte de um banco, aí, esperava-me outras assistentes que, com simpatia, ajudavam a instalar-me convenientemente na marquesa onde a máquina rodaria, em ciclos préviamente programados, em redor do meu corpo, com breves paragens nos 4 pontos alvo, anteriormente marcados
Gostava de ouvir o movimento característico da máquina. Nela estava depositada toda a minha esperança. Era o meu deus -  era um produto fabuloso da inteligência humana. Vinha-me, entretanto, à minha memória, naquele momento, o que já tinha lido sobre os cientistas que foram os pioneiros, que contribuiram com a suas pesquisas e descobertas na área da física  para a realização deste grande invento -  Tudo começou com a polaca madame Curie, e seu marido Pierre Curie, nos seus estudos sobre radioactividade na Soborne de Paris, Madame Curie, viria a ganhar o prémio Nobel da quimíca em 1911, Era uma história apaixonante a vida deles, como casal e como cientistas!
 Enquanto a máquina ia queimando as minhas entranhas, o meu pensamento deambulava por diversos temas, tentando instintivamente, fugir das razões porque estava alí. Assim, todas as vezes que o arco do aparelho parava, em breves momentos cronometrados, nos alvos determinados no meu corpo, para emitir os feixes altamente concentrados de Raios X, eu aceitava com certa satisfação, aquela incomodidade, por saber que era a única forma eficaz para a destruição das células aberrantes, travando-as na sua caminhada, para um desenvolvimento descontrolado e fatal!
Era esta a rotina que, durante 40 dias, todas as manhãs, iria fazer parte do meu quotidiano

Estávamos em Novembro,no ano de 2007.  Era por volta das 9,30 que entrava na sala de espera. Normalmente, deparava-me com os mesmos companheiros de luta. Algumas, tentavam estabelecer conversa para suavizar, de algum modo, o stress há muito instalado nas suas vidas. Aquele espaço, seria durante um tempo, a nossa catedral onde, os deuses da medicina, todos os dias, faziam os seus milagres. Tinhamos, todos, o mesmo estatuto – estávamos em frente do touro, unidos pela mesma luta para evitarmos a sua marrada!



                                                   As personagens

                                                         Joana

Mulher de 50 e tal anos, cãncer da mama. Era divorciada.  tinha dois filhos. Estava a ser “limpa” depois da cirurgia para remoção de um tumor da mama, através de um número de sessões de radioterapia.  Apresentava-se com o cabelo rapado por opção, para evitar o aspecto caótico pela queda do mesmo, resultado dos efeitos perniciosos da quimioterapia que acabara de fazer.
Há rostos que conseguem aguentar, lindamente, um corte de cabelo radical e, neste caso, preferem manter o aspecto de uma cabeça lisa, ao uso de uma  cabeleira artificial,  para evitarem assim ,os incomodos que esta  comporta.
No caso de Joana,- na sua opção tomada – em nada beliscou a beleza do seu bonito rosto, antes pelo contrário, conferia-lhe um ar exótico. Para evitar o frio, usava, normalmente um lenço. Era uma mulher dinâmica, estando sempre de telemóvel no ouvido, resolvendo problemas da pequena empresa de confecção de roupa de criança que possuia na cidade de Almada. De vez enquanto, trazia uns mimos para saborear com os companheiros da sala, quando tiravam o café da máquina. Depois, sentava-sempre que possível, na mesma cadeira, ao fundo da sala, onde esperava um companheiro com quem estabelecera conversa desde o inicio. Gostava desses momentos, a julgar pela atenção que dedicava, escutando-o com toda a atenção.


                                                   Pedro Caldeira

A rondar os 40 e tal anos, carcinoma da próstata, executivo de uma grande enpresa familiar de exportação, bastante alto, cabelo preto e uma madeixa a teimar cair-lhe para a testa, que ele constantemente tentava afasta-la. Vestia um sobretudo azul escuro que lhe conferia um ar distinto. Movimentava-se constantemente pela sala, denunciando um certo nervosismo e intranquilidade. Certo dia estabeleceu conversa comigo, quando subíamos no mesmo elevador – ando há muito tempo para falar consigo, disse dirigindo-se de mão estendida. – sabe, é que ando tremendamente desorientado com tudo isto. Muito embora o médico me dê as respostas para as questões que lhe vou colocando, gostaria  - uma vez que está no mesmo barco -  saber se está vivendo as mesmas  situações porque estou a passar. Olhe, por exemplo, sangro pelo ânus quando faço as minhas necessidades – que me diz sobre isto? acontece-lhe o mesmo? Disse-lhe que sim! – era uma situação que normalmente ocorria dentro do quadro de tratamento que estavamos a ser sujeitos, em que os tecidos envolventes ficavam bastante fragilizados pela exposição continuada dos raios X, daí as  consequentes queimaduras. – Mas o problema não é só este, há mais ! olhei para ele, aguardando interrogativamente a explicação – é que há muito tempo, - entretanto parou, olhou para os lados para se certificar se havia alguém por perto, baixando o tom de voz, disse-me, quase sussurrando: é que há muito tempo a “gaita” não se põe em pé! Cocei a cabeça, por não esperar tal desabafo, reflectindo bem na resposta a dar. – Bem , ainda não tive tempo para aferir essa situação, pois estou, como você, numa fase de tratamento, em que tudo está funcionando mal. Qualquer das hipóteses, no meu caso, já não representa uma prioridade, não  estando a desgastar-me com um problema que possa surgir depois – acho que não devemos morrer de véspera – No entanto, meu caro amigo, considerando a sua idade e a sua vida sexual estabelecida, deverá, algum tempo depois do tratamento, saber se, a sua impotencia continua e, nesse caso, procurar com o seu médico resolver esse problema, considerando que há soluções, através de novos fármacos que ajudarão, certamente, a resolver essa patologia: é uma questão de tempo! Perguntei-lhe, depois, se tinha já colocado esse problema ao médico ? sim, já falei com ele: disse-me que o problema de impotencia que estava sofrendo se devia em parte ao tratamento de hormonoterapia cuja adminstração por implante na região abdominal, se destinava a bloquear a actividade na produção de testosterona a partir dos testículos. Com este resultado, a actividade da próstata parava, acabando por começar a reduzir o seu tamanho e consequentemente , também, o do tumor nela existente! Era mais fácil depois, ministrar a radioterapia com um alvo mais reduzido. Logo, se verifica uma baixa imediata, nos valores do PSA. ( marcador específico da próstata )  Este tratamento pode ter a duração de 6 meses, não sendo, no entanto uma solução definitiva para a cura mas, sim, um complemento à radioterapia pela eventual redução do tumor e evitar  também, a dessiminação das células pelo corpo.  Porém, é de referir os estragos que provoca no organismo. Um deles, por exemplo é provocar uma andropausa que, embora provisória, não deixa, no entanto, de fustigar o nosso corpo com todos os sintomas característicos, de certa forma identicos aos das mulheres na menopausa – calores súbitos, suores nocturnos, e sensações estranhas, indefenidas, de uma epécie de arrepio interno, como quem entra, de repente, num duche bem gelado, percorrendo o corpo de alto a baixo!
Foi com este confronto de situações que, comumente, nos afligiam, que nos despedimos, após termos estabelecido, a partir daquele momento, um clima de aproximação e de abordagem a outros temas de diversa ordem, Para desdramatizar, rematei este diálogo , com uma citação brejeira de um amigo meu, homem da noite, daquele tipo marialva que em questões de sexo nunca têm derrotas -  então ele dizia enfàticamente, quando as coisas, nesse campo, não lhe corriam bem: meu caro amigo, fique sabendo uma coisa: não há homens impotentes mas sim mulheres incompetentes!
Pedro, largou uma valente gargalhada, ficara bem disposto, depois, com passo firme, dirigiu-se  à porta de saída do grande hall da recepção, onde poucoa metros, mais à frente, um motorista lhe abria a porta de um BMW, topo de gama. Quanto a mim apanhei o meu carro no parque de estacionamento e segui tranquilo, ouvindo a entrevista do costume do jornalista Pedro Múrias, em ligação directa com o RCP, sobre o relato directo das suas dramáticas experiencias, no tratamento da sua doença, oncológica, enquanto internado no hospital e a sua resistencia psicológica, às adversidades das sequelas dos tratamentos que estava, no momento, a ser sujeito. Era para mim uma referencia positiva de coragem e de luta!
Pelo caminho para casa, ainda distante, premia depois o botão  do rádio para ouvir um CD com música a meu gosto.  Sentia-me feliz por estar envolvido no transito, porque ele representava o palpitar da vida, e eu estava ali, também, como todos,  fazendo parte dele -  Estava vivo!


                                                           Ramos
        

Com a idade de 75 anos, cancro do cólon, construtor civil.  Chegava sempre à sala, acompanhado por um empregado da sua pequena empresa, situada em Carcavelos. Desde o primeiro dia que me fixava com insistência, até que, em determinado momento, interpelou-me, perguntando se me chamava Hélder. Olhei, então, para ele, fixando-o com toda a atenção, acabando por reconhece-lo, após breves momentos. Era um industrial de construção civil que conheci muito de perto, enquanto gerente de um balcão do banco, em Oeiras. Nessa altura possuia uma grande empresa de máquinas pesadas para trabalhos de grande vulto em obras públicas. A partir daquele momento, ia-me dando retalhos da sua vida, no lapso de tempo em que nos perdemos. E que vida!
Tempos atrás, algumas vezes, fui à  sua casa de campo  dentro duma quinta que possuia para os lados da Terrugem – uma localidade próxima de Sintra. Gostava de receber algumas personalidades com quem privava na sua vida profissional.  Num desses almoços, com vários convidados, estavam, também, presentes todos os membros da sua familia – a mulher e duas filhas, ainda jovens. Uma delas chamava a atenção pela sua excepcional beleza.Das empregadas que estavam servindo o almoço, havia uma rapariga brasileira, também extrordinàriamente bonita – lembrava-me que um dos pratos servidos nesse almoço era cozido à portuguesa acompanhado de um bom vinho da região de Colares. Também me lembrava de não resistir de deitar, de vez enquanto, uma olhadela para a filha do Ramos, para apreciar as linhas daquele estupendo rosto. Certa altura, talvez por estar de olho nela, reparei uma visivel e inquietante ansiedade naquela jovem e, todas as vezes que, a brasileira,  aparecia para servir à mesa -  havia uma visivel cumplicidade entre as duas, em trocas de olhares que mais pareciam súplicas!
Terminado o almoço e já confortàvelmente sentados numa explanada sobranceira a uma zona ajardinada, com uma àrea grande de relva bem cuidada, estendendo-se até ao portão com alas de plátanos de grande porte,  saboreando o café e os respectivos digestivos, dei conta de um certo desassossego do anfitrião Ramos e a sua mulher. Era um alvoroço que não estava a ser devidamente controlado. Algum drama estava-se desenrolando na vida do casal.  Nesse mesmo momento reparei que a filha e a empregada brasileira, em grande correria, dirigiam-se para um WW carocha de cor amarela que estava estacionado próximo do portão de entrada, na rua de acesso. Já dentro do carro desapareceram em grande velocidade.

Lucinda, assim se chamava a filha do Ramos, seguia desesperada no seu carocha, em companhia da Isaura – a empregada brasileira -  tinham de estar, às quatro horas da tarde em Cascais. O habitual fornecedor de droga estava à sua espera. Entretanto, o seu corpo, estava todo a tremer e as dores que sentia eram tão intensas que estava ficando completamente fora de si. – estava na ressaca. Foi “agarrada”, pela heroína depois de um longo percurso por várias drogas, começando nas leves, em diversos bares de Cascais. Ela representava uma presa apetecida dos traficantes, pelo conhecimento que tinham da vida empresarial do pai, chantageando-a de toda a forma e feitio!
Há dois dias que não lhe forneciam a dose que, normalmente era transportada pela Isaura.
Lucinda já tinha feito tudo para conseguir a verba exigida – 150 contos – junto dos pais, desta vez sem qualquer resultado. Estes estavam consumidos por tanta chantagem e milhares de contos já perdidos no sórdido mundo da droga, para não falar na destruição de uma bela jovem que fenecia, dia a dia, afundada naquele buraco negro do vício destruidor. Embora completamente despedaçados, mantiveram-se firmes na posição acordada entre os dois. Era óbvio que, a Isaura, também já estava “apanhada” e era  eles que estavam a financiar  o consumo das duas, para não mencionar as coisas de valor, espólio da família que há muito iam desaparecendo da  residencia de Carcavelos.

O “correio”, dentro de um BMW, estava estacionado ,à hora combinada,  próximo de uma mata do Guincho. Lucinda, completamente consternada entrou no carro dele, dizendo-lhe que não tinha conseguido a verba exigida, - não há dinheiro,  não há negócio! Face às súplicas de Lucinda, oferecendo o seu corpo em moeda de troca, para o fornecimento de uma dose que fosse, prometeu-lhe falar com o “manda chuva” e que aparecesse, entretanto, pelas 23 horas, no sítio do costume, em Cascais.


Lucinda e a brasileira, nessa noite, não foram dormir a casa! Os pais já se tinham acostumado a estas ausencias fortuitas das duas. Era assim, com este terrivel pasadelo que viviam ùltimamente. A vida deles estava completamente desfeita, sem alegria nem objectivos futuros. Ele -  o pai – entregava-se absorvidamente ao trabalho na empresa: era o seu lenitivo, a mãe, por sua vez, dedicava-se a obras sociais da igreja, principalmente, no apoio às vitimas das drogas. Desta vez, porém, a ausencia delas nessa noite, revestia-se com uma preocupação acrescida – era o facto de não terem cedido  ao pedido da filha em lhe darem os 150 contos, para compra da droga. Eles sabiam do perigo que ela corria, nas mãos dos traficantes. Nessa manhã estavam, efectivamente, muito preocupados.

No dia seguinte, Ramos foi notificado, telefònicamente, pela polícia de Cascais.  Pediram-lhe para se dirigir o mais rápido possível ao posto que actuava dentro do hospital. Enquanto conduzia o carro, uma angústia terrível apoderou-se dele, acompanhada de um pressentimento.
Quando chegou ao hospital, foi ao encontro do gabinete da polícia, ali residente, logo na entrada. O guarda, perguntou-lhe se era o sr Ramos e se tinha uma filha chamada Lucinda, depois parando um pouco, disse-lhe, prepare-se pois vou dar-lhe uma infeliz notícia – a sua filha foi encontrada morta, com várias facadas no corpo, por detrás de um tapume de uma obra no centro de Cascais! Encontra-se na morgue, para autópsia e formalidades judiciais, agradecemos a sua colaboração, na respectiva identificação!

Acompanhei, ainda estes episódios através do jornal. Nunca mais estive com o Ramos, porque, entretando, fui transferido para o balcão de Belém.
Sabia, agora, nos encontros da sala de espera, nas nossas conversas, que não conseguindo ultrapassar a dor da perda da filha, Ramos, negociou a sua quota da firma com o sócio, dedicando-se, depois ao negócio do imobiliário, com uma pequena empresa que já possuia com um dos seus irmãos.
O stress, os desgostos e um remorso acutilante, minaram as suas defesas naturais de tal forma que abriram caminho a um processo oncológico – porque, não tenhamos dúvidas : o cancro está latente dentro de nós, quer genèticamente quer, ainda, se lhe abrimos caminhos através do nosso estilo de vida!


                                                          Armando


65 anos, carcinoma da próstata. Apresentava-se cuidadosamente bem vestido, dentro do tradicional, boa aparencia, meio calvo, reformado de um Banco, bom comunicador, trazia sempre um livro consigo. Porém, pouca utilização lhe dava,  já que preferia estar sempre próximo de Joana para manter conversa com ela. Por sua vez, pelos vistos, ela correspondia a essa sua escolha com agrado, mostrando, muita atenção às convesas dele, com evidente exclusividade!

Era assim, o dia a dia, da sala de espera.  No entanto, a minha estadia naquele hospital, estendia-se  a outros serviços. O restaurante no 7º andar, era um deles. Uma grande parte do pessoal  utilizava aquele espaço onde  uma empresa da especialidade disponibilizava refeições já confeccionadas. Comida simples, adequada, de qualidade razoável. Quando estava livre do tratamento, era alí que almoçava. Calhou, um dia, estar na frente, de uma mulher a rondar os 45 anos vestida normalmente, sem bata, o que pressuponha não pertencer ao quadro do pessoal . Metemos conversa ao perguntar-me se era familiar de alguém internado no hospital, porque dava conta da minha presença diária no restaurante. Ficou um pouco surpreendida pela minha resposta, em que lhe expliquei a razão da minha estadia!

                               
                                                            
                                                     Raquel



Disse-me, então,que era assistente social, prestando serviço no rés do chão, na área de acolhimento dos doentes. Depois de vários encontros, no restaurante, as nossas conversas iam-se aprofundando, talvez por deformação profissional, ela gostava de me fazer frequentes perguntas. Como dispunha de algum tempo, na hora do almoço, convidou-me a que tomassemos o café, num estabelecimento, fora do hospital mas alí, logo ao lado.
Tinha um rosto bonito, onde assentavam bem uns óculos de elegante “design” fazendo realçar uns olhos de  cor verde suave. Falávamos dos nossos gostos, das nossas escolhas em diversas áreas, tentando não caír em temas que podessem avivar as minhas preocupações tão presentes, ali, naquele ambiente!
Reparei que ela gostava de falar sobre livros. Disse-me, sempre que tinha oportunidade pegava neles, à noite ,quando se deitava. Era divorciada e mãe de um filho de 22 anos, com quem vivia.
Certo dia, desfechou-me uma pergunta à queima-roupa -  você tem alguma fé? É crente? Talvez estas interrogações partissem de um pressuposto  sobre minha atitude, na confrontação com uma doença terrível ! Respondi-lhe que não - que a fé, quanto a mim, era uma questão de postura intelectual em que partia de uma disposição: acreditar ou não acreditar! – mas, interrompeu-me ela, você não se questiona sobre a solidão de uma alma deserta, sem tábua de salvação em que se possa agarrar nos momentos díficeis que surjam na sua vida? Sim, tenho pensado muitas vezes nisso, respondi-lhe apreensivo – de facto é tremendamente perturbante não termos nada onde nos agarrarmos e estarmos confrontados com uma realidade nua e crua, é como o náufrago sem uma tábua de salvação! É a grande factura a pagar pela clarividencia. Pelas escolhas das nossas certezas!
Por outro lado, entendo que, o percurso da humanidade e na sua relação com o místico, está nas suas interrogações sem respostas que obrigará à constante pesquisa, dentro da lógica da ciencia.  Raquel, escutou com atenção e olhando para mim, com um ar travesso, disse – será que você leu Roger Martin DuGard? Sim, de facto, li o Drama de João Barois, numa idade em que os idealismos se alicerçam nos paradigmas que os grandes pensadores nos vão transmitindo. As religiôes, neste caso a Católica, não preenche esse quadro de anseios e interrogações, porque a sua resposta é, em determinado momento, inexistente – é o dogma! O catolicismo, não pode  acompanhar a evolução porque é uma filosofia de revelação – é o seu grande espartilho!
Raquel não se ficava com a minha interpretação que, afirmava ser radical, - acho que você está fazendo a sua leitura muita simplicista das grandes questões do pensamento humano. -  Bem, então para terminar ocorre-me uma citação de um grande filósofo português, mais ou menos isto: “ o Homem, quando pela primeira vez olhou o céu e se interrogou ao ver as estrelas, inventou Deus” – Você é incorrigível, disse-me com um sorriso!
Depois de algumas destas conversas filosóficas, passávamos para outros temas, menos complexos, trocando impressões da nossa vivencia naquele hospital, cheio de recortes de dramas humanos que ela, por força da sua própria profissão, tão bem conhecia. 

Entretanto, os tratamentos chegaram ao fim. Estávamos em Dezembro. O técnico esponsável, homem novo e bem apetrechado de sabedoria, deu-me o resultado num relatório escrito, do meu comportamento físico em relação às sequelas normais do tratamento. A garantia da sua eficácia eram 5 anos, que deveria ser devidamente acompanhada, a partir daquele momento, pelo meu medico urologista. Pela primeira vez, na minha frente, encontrei um homem com a capacidade de me explicar minuciosamente os problemas inerentes à doença e dando-me nota dos comportamentos que futuramente teria de encarar, inclusivamente nos cuidados alimentares que devia seguir.

Decorridos três meses, já com o primeiro resultado das análises em meu poder, entrava , novamente no hospital, para uma consulta médica de primeira  avaliação, após tratamento, prèviamente marcada e lembrada através de mensagem enviada pelos serviços, para o meu telemóvel. Fui atendido, como sempre, com cordialdade, pelo médico urologista. Perante a palpação da próstata e os resultados dos valores do PSA demonstrados nas análises, com o valor “0”, deu-me a notícia que tinham sido alcançados os resultados esperados, estando convencido da minha cura.
Foi uma palavra de esperança. Saí do gabinete com uma satisfação evidente, porque o touro, ainda, desta vez, não me tinha dado a marrada!




Mais tarde, alguns meses, depois, numa visita de rotina, numa tarde fria de inverno, encontrei Joana no hall do Hospital. Tinha, entretanto, recuperado o cabelo e, como sempre, continuava uma mulher bonita. Quase que, não a reconhecia, não fora o sua chamada pelo meu nome. Abraçou-me demoradamente e com grande manifestação de alegria. Puxando-me pelo braço disse-me: vamos beber um café, bem quentinho, alí, naquele café, ao lado do edifício.
Já sentados na frente de uma meia de café com leite, um café e dois bolos, demos largas à nossa saudade e ansiedade na obtenção de notícias de como estavam a evoluir os nossos problemas de saude. – Então, o que tem feito, meu amigo? Está com bom aspecto, disse-me. – bem, não me queixo do aspecto, qualquer as formas estou, agora, atravessando aquela fase, resultante das sequelas impostas pelo próprio tratamento mas, enfim, vou passando razoavelmente bem, especialmente no aspecto psicológico. – E a minha amiga? – Olhe, digo-lhe que tenho passado bem. O meu médico diz-me que tudo está correndo dentro da normalidade esperada. Estou fazendo a minha vida, como antes e, como pode constatar já tenho o meu rico cabelo de volta. – Com um jeito sacudido da cabeça fez movimentar todo o seu volume. De facto estava linda e a côr ruiva assentava-lhe mesmo muito bem!
Com um certo constrangimento, arrisquei perguntar-lhe pelo Armando, se continuava a vê-lo? – sim, respondeu-me : ele também tem passado bem, com os mesmos problemas que, você também, já me disse estar a passar. Mas olhe, vou ser muito franca e um pouco mais directa, sobre aquilo que, certamente, terá curiosidade em saber! – sabe, há momentos nas nossas vidas que nos fazem saír da nossa costumada racionalidade ou até, do nosso comportamento línear, habitual ! certos ambientes, determinadas situações, por vezes, podem despetar-nos estados de alma em nós há muito adormecidos! Aquela sala, em certa altura, tinha uma magia. Sentia-me bem quando falava com o Armando, recuperando a minha auto-estima aos poucos, com o facto de um homem estar a partilhar, os seus problemas comigo. Ele é um bom conversador, alimentando-me o espírito e a minha curiosidade, interessando-se bastante por mim. Isto cai bem a uma mulher, muito especialmente se estiver fragilizada como eu estava, naquele momento. Portanto, aquela sala, representava para mim, o último reduto da minha esperança para a cura. Todo aquele ambiente, era mágico, era surreal. Por outro lado e sem ironia, foi onde consegui, ao fim de alguns anos, ter o meu próprio tempo, com o Armando a meu lado! Quando regressei à rotina da minha vida, após o tratamento, voltei a ser aquela mulher pragmática, exigente, sem espaço para mim, muito menos para os outros. Gerir uma empresa com trinta trabalhadores, nos tempos que correm, como pode  depreender, é muito dificil, requerendo grande empenhamento e sacrificios de ordem pessoal. Uma grande parte da nossa produção destina-se ao mercado espanhol e inglês e não nos podemos dar ao luxo de termos devoluções. A minha filha é responsável por tudo o que diz respeito ao design, contando comigo para lhe dar todo o apoio possível e por vezes, até na sua vida pessoal, na atenção que os meus netos precisam. Ela é a estilista da nossa empresa.
Portanto, meu amigo, não tenho tempo para mim, para poder desfrutar de uma relação séria e assumida. É verdade que nutro uma grnde amizade pelo Armando e mantemos esse sentimento vivo, com algumas ecapadelas para podermos estar os dois com alguma intimidade. Além do mais, - não sei se sabe – ele ainda é casado. A mulher dele está internada num lar, sofrendo de Alzheimer, numa fase avançada. Teria desgosto não poder contar com a sua amizade, porque, ele, é o que me resta em termos de afectos sentimentais – depois do meu divórcio, nunca tive qualquer ligação amorosa. Portanto, não quero perder o Armando de todo. E, pronto: agora que já despejei o meu saco, diga-me você o que tem feito? Bem, seria a minha vez de o fazer mas, passou-se tanta coisa a alterar radicalmente a minha, com a doença da minha mulher, que resolvi omitir tais ocorrencias para não dramatizar o ambiente, preferindo referir-me a banalidades, tais como livros que tinha lido e outras coisas sem interesse, como sendo o meu súbito interesse pela culinária!
A noite tinha caído já há muito. Olhei o relógio, Joana levantou-se compondo o vestido. Ambos caminhámos em direcão a um “Renault espace” – era o carro dela. Despediu-se de mim com um abraço e um beijo – espero voltar a vê-lo – um cheiro agradável do seu perfume envolveu o meu rosto por breves momentos – já lhe dei, anteriormente, o meu número de telefone – disse,me enquanto abria a porta do carro: espero que não o tenha perdido! O motor do Renault começou a trabalhar – fiquei por momentos a vê-lo desaparecer na curva, com os olhos fixos nas luzes dos stops que brilhavam intensamente, naquela noite fria de inverno. Aconchegando o cachecol em redor do meu pescoço, fui buscar o meu carro estacionado no parque. Já a caminho de casa, pensava, com desgosto que, talvez, não voltasse a vê-la, porque ela, como tantas outras, era uma mulher sem tempo!




                                                      Hélder Gonçalves
                                                          Julho 2010



                                      

A Sala do Tempo Parado

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Só quem não viveu não tem histórias para contar

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