Dicotomias

Memórias, contos & Poesia

terça-feira, 4 de novembro de 2014

ALFAMA - Fado. sonhos & Saudade Autor Hélder Gonçalves







Parte de um trecho do livro Alfama


Henrique fora abordado, em determinado momento, por um colega de trabalho que ele bem conhecia e simpatizava pela sua sobriedade – O Augusto. Era um homem muito reservado, de poucas palavras. Um dia, quando estavam nos balneários, perguntou-lhe se ele estava disponível, nessa noite para dar um salto até à “Voz do Operário”- precisava de falar com ele.
-Quero falar contigo, de forma a não termos qualquer pessoa, por perto, a dar fé daquilo que vou-te dizer.
-Henrique ficou numa atitude expectante
-Há algum problema com a oficina retorquiu por fim, Henrique, pensativo.
-Não, - está descansado que é um assunto fora da área direta de trabalho – não fiques preocupado, pois asseguro-te que não é caso para tal. – Logo verás!
Depois despediu-se dizendo-lhe, em confirmação – Então, até logo às nove horas.
Henrique, a caminho de casa transportando a sua lancheira de fole, onde levava o almoço, fato de macaco, e o tal boné deformado, ia cogitando sobre o que Augusto “sisudo” (era a alcunha) - lhe queria dizer. Estava morto de curiosidade, mas, também, de alguma ansiedade.
Logo, depois da rotina, que seguia, quando chegava a casa, sentou-se no banco da cozinha observando a mãe aprontando o jantar, até lhe perguntar:
-Que está fazendo para o jantar minha mãe?
-Olha, filho, uma sopa de feijão encarnado. Como conduto, fritei besugos e fiz arroz de tomate e pimento.
-Oh mãe digo-te que estou cheio de fome.

-Vai ao armário, corta rodelas de chouriço, mete numa bucha, e come com azeitonas. -Sempre dá para te entreteres até o jantar estar pronto. Esperamos pela tua irmã que não tarda – os velhotes já comeram e já se enfiaram no quarto. Os teus avós, já sabes como são – café, pão, peixe frito, vinho e azeitonas, mais vinho do que pão e, lá vão, um e outro praguejando por isto e por aquilo, para o quarto, – cada vez estão mais velhotes. - O teu avô está mais corcunda pela constante posição de estar sentado e curvado sobre os cestos. É a vida meu filho! - Temos de ter paciência, terminou, resignada, abanando a cabeça.




A Sala do Tempo Parado

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Só quem não viveu não tem histórias para contar

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